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Sherlock Holmes
Pouco
se sabe sobre a história de Holmes anterior ao período da
Baker Street. Seus antepassados eram proprietários rurais, e
parecem ter levado vida comum à sua classe. Apesar disso, a
inclinação dedutiva está nas veias da
família. Sua avó era irmã de Vernet, o artista
francês. "A arte no sangue está sujeita a tomar as formas
mais estranhas". Seu irmão, Mycroft Holmes,
possuía a inclinação para observação
e dedução ainda mais aguçada que Sherlock.
Quando chegou em Londres, não se sabe vindo de onde, tinha seus aposentos na Montague Street exatamente na esquina do Museu Britânico. Seu primeiro caso foi "Gloria Scott", ainda nos tempos da Universidade. Seja qual tenha sido a história de Holmes, é raro que qualquer criatura tenha feições mais definidas em nosso imaginário quanto o famoso detetive. Sua estatura passava de um metro e oitenta, mas era tão magro que parecia mais alto ainda. Seus olhos eram agudos e penetrantes, e seu nariz delgado, aquilino, acrescentava às suas feições um ar de vigilância e decisão. Também o queixo, quadrado e forte, indicava nele o homem resoluto. Suas mãos andavam invariavelmente salpicadas de tinta e manchadas por substâncias químicas, mas possuíam uma extraordinária delicadeza de tato, como freqüentemente tive ocasião de notar ao vê-lo manipular os seus frágeis instrumentos de química. Jamais estudou medicina - embora tenha retalhado cadáveres para saber até que ponto se pode provocar escoriações depois da morte - nem tampouco fez qualquer curso regular que o habilitasse a integrar-se em algum ramo da ciência ou do mundo erudito. Contudo, seu zelo por outros estudos era notável e, dentro de certos limites excêntricos, o seu conhecimento era extraordinariamente amplo e minucioso. Esse estudo sem método e apaixonado fez Holmes acumular uma série de conhecimentos que, de tão invulgares, não deixariam de espantar qualquer pessoa.
Por outro lado, sua ignorância era tão notável
quanto seus conhecimentos. Sabia nada ou pouco sobre literatura,
filosofia e política da sua época. Ouvindo Watson citar Thomas Carlyle,
Holmes perguntou quem era e o que tinha feito esse homem. Por mais
absurdo que pareça, Holmes ignorava até a teoria de Copérnico
e que a Terra girava em torno do Sol. Após Watson lhe informar
sobre a composição do sistema solar, Holmes comentou que
logo trataria de esquecer esse fato - assombrando Watson - pois
não faria a menor diferença para seu trabalho de
investigador e raciocinador lógico que a Terra girasse ou
não ao redor do Sol. Para justificar o porque desse
esquecimento, Holmes define o cérebro humano: "Considero o cérebro de um homem como sendo inicialmente um sótão vazio, que você deve mobiliar conforme tenha resolvido. Um tolo atulha-o com quanto traste vai encontrando à mão, de maneira que os conhecimentos de alguma utilidade para ele ficam soterrados, ou, na melhor das hipóteses, tão escondidos entre as demais coisas que lhe é difícil alcançá-los. Um trabalhador especializado, pelo contrário, é muito cuidadoso com o que leva para o sótão da sua cabeça. Não quererá mais nada além dos instrumentos que possam ajudar o seu trabalho; destes é que possuir uma larga provisão, e todos na mais perfeita ordem. É um erro pensar que o dito quartinho tem paredes elásticas e pode ser estendido à vontade. Segundo as suas dimensões, há sempre um momento em que para cada nova entrada de conhecimento a gente esquece qualquer coisa que sabia antes. Conseqüentemente, é da maior importância não ter fatos inúteis ocupando o espaço dos úteis". Watson assim enumerou os conhecimentos do seu amigo Holmes: 1- Literatura: zero. 2- Filosofia: zero. 3- Astronomia: zero. 4- Política: escassos. 5- Botânica: variáveis. conhece a fundo a beladona, o ópio e os venenos em geral. Nada sabe sobre jardinagem e horticultura. 6- Geologia: práticos, mas limitados. Reconhece à primeira vista os diversos tipos de solo. No regresso dos seus passeios, mostra-me manchas nas calças, e diz-me, pela sua cor e consistência, em que partes de Londres as conseguiu. 7- Química: profundos. 8- Anatomia: exatos, mas pouco sistemáticos. 9- Literatura sensacionalista: imensos. Parece conhecer todos os pormenores de todos os horrores perpetrados neste século. 10- Toca bem o violino. 11- É habilíssimo em boxe, esgrima e bastão. 12- Tem um bom conhecimento prático das leis inglesas. Mantendo-se fiel ao seu modelo quanto ao cérebro humano e aplicando esse modelo à atividade à qual se dedicava tão intensamente - a criminologia - o leque de conhecimentos de Sherlock Holmes era perfeitamente adequado e eficaz. De suas meditações sobre o ofício, Holmes publicou um pequeno artigo, chamado "O Livro da Vida", no qual alerta para a extrema importância da observação. Ei-lo:
"De uma gota de água um raciocinador lógico poderia
inferir a possibilidade de um Atlântico ou de um Niágara,
sem ter visto ou ouvido um ou outro. Assim, toda a vida é uma
grande cadeia cuja natureza se revela ao examinarmos qualquer dos elos
que a compõe. Como todas as outras artes, a ciência da
dedução e análise só pode ser adquirida por
meio de um demorado e paciente estudo, e a vida não é
tão longa que permita a um mortal aperfeiçoar-se ao
máximo nesse campo. Antes de passar aos aspectos morais e
mentais de um assunto que apresenta as maiores dificuldades, o
pesquisador deve principiar por se assenhorar dos problemas mais
elementares. Ao encontrar um semelhante, deve aprender a distinguir
imediatamente qual a história do homem e o mister ou
profissão que exerce. Por mais pueril que esse exercício
possa parecer, aguça as faculdades de observação e
ensina para onde se deve olhar e o que procurar. Pelas unhas de um
homem, pela manga de seu casaco, pelos seus sapatos, pelas joelheiras
nas calças, pelas calosidades de seu indicador e de seu polegar,
pela sua expressão, pelos punhos de sua camisa... em cada uma
dessas coisas a profissão de um homem é claramente
indicada. Que o conjunto delas deixe de esclarecer um indagador
competente, em qualquer caso, é virtualmente
inconcebível".A visão analítica de Holmes permitia-lhe ver o aparentemente insignificante e trivial que passava despercebido aos olhos comuns. Os punhos da camisa podem ser decisivos. Holmes teoriza: "O raciocinador ideal, depois de observar um simples fato em todas as suas facetas, deduz não só o encadeamento dos acontecimentos, como também todos os resultados que se seguirão. Assim como Cuvier podia descrever corretamente o animal todo pela contemplação de um simples osso, assim também o observador que compreendeu perfeitamente um elo numa série de incidentes deve ser capaz de prever acertadamente todos os outros pontos relativos ao caso, tanto antes como depois. Ainda não alcançamos os resultados que só com a razão podem ser atingidos. Problemas que têm embaraçado quem procurava a sua solução por meio dos sentidos puderam ser resolvidos simplesmente pelo estudo e pela reflexão. Para praticar a arte de discernir até o mais alto grau, é necessário que o raciocinador possa utilizar-se de todos os fatos que lhe vieram ao conhecimento; isto, em si, implica que se deve possuir um conhecimento de tudo o que possa ser útil ao seu trabalho, o que, mesmo nestes dias de educação livre e enciclopédica, é raro". Ao mesmo tempo, Sherlock Holmes podia falar sobre violinos de Cremona e explicar a diferença entre um Stradivarius e um Amati; discutir dramas sacros, cerâmica medieval, budismo no Ceilão, navios de guerra do futuro e ler Petrarca numa viagem até uma cidadezinha do interior onde iria esclarecer um mistério. Também era um mestre no disfarce; já interpretou sacerdotes, operários, velhos esportistas e até matronas. Enquanto esteve 'morto', assumiu a identidade de Siegerson, explorador norueguês. Viajou pelo Tibet e conheceu o dalai-lama; passou pela Pérsia e Meca e relatou os resultados de suas viagens ao Ministério do Exterior. Quando decidiu se aposentar, Sherlock Holmes retirou-se para a pequena casa que mantinha em Sussex, na vertente sul do Downs, com vista para o canal da Mancha, "levando aquela doce vida de natureza pela qual tantas vezes suspirara durante os longos anos passados em meio à melancolia londrina". Eventualmente, deixava seu isolamento para solucionar algum problema de grande importância. No meio de tanta atividade, Holmes ainda encontrava tempo para teorizar e publicar o resultado de suas reflexões. Escreveu: Duas monografias publicadas na Revista Antropológica, onde aborda questões anatômicas; Uma monografia sobre cinzas de charutos - gabava-se de reconhecer à primeira vista a cinza de qualquer marca conhecida de charuto ou tabaco -, em que enumera cento e quarenta tipos de tabaco usados em charutos, cigarros e cachimbos. "Se você puder dizer, positivamente, por exemplo, que determinado crime de morte foi praticado por um homem que estava fumando um charuto de tabaco indiano, é óbvio que isso reduz o campo das pesquisas"; Uma monografia sobre pegadas, outra sobre a influência do ofício na forma da mão (com litografias das mãos de uma série de trabalhadores a fim de identificar a diferença entre elas); Também publicou um livro, chamado Manual prático de apicultura, com algumas notas sobre a segregação da abelha rainha. MuNdO eLeMeNtAr - Todos os direitos reservados |