Segredos do Cânone

Por várias fontes
Condensado de várias fontes


    Ao que parece, Conan Doyle gostaria que seus leitores se inspirassem em seu detetive e aplicassem os mesmos métodos dedutivos para responder às questões que ficaram sem resposta no Cânone. Algumas dessas permanecem até hoje obscuras na espessa neblina de Londres.

     A seguir, você encontra teorias apresentadas por alguns estudiosos na tentativa de resolver os diversos mistérios do Cânone sherlockiano. Nenhum trecho dos livros de Sherlock Holmes prova que tais hipóteses são ou não corretas. Fica por conta de cada um crer no que considera mais razoável.

1. A Gênesis Holmes-Moriarty
2. O Grande Hiato
3. O "H" de John H. Watson
4. Os Casamentos de Watson
5. O Cânone Secreto
  

A Gênesis Holmes-Moriarty

     Uma vez que a infância de Holmes deu-se no campo, conforme descobrimos em "O Intérprete Grego", sua educação deve provavelmente ter passado pelas mãos de um tutor. Alguns estudiosos acreditam que o instrutor era o próprio Moriarty. Conforme proposto por Trevor Hall no ensaio "Os primeiros anos de Sherlock Holmes", Moriarty era o tutor tanto de Sherlock como de seu irmão, Mycroft. O Professor acabou por se envolver com a mãe de Sherlock, que mais tarde fora assassinada pelo próprio marido, depois de descoberta a traição. A teoria de Trevor explicaria a incansável perseguição de Holmes ao Professor e sua profunda desconfiança nas mulheres.

     No conto "A Solução a Sete Por Cento", de Nicholas Meyer, a teoria de Hall é ampliada - Moriarty não era o temível Napoleão do Crime, mas sim um simples professor que fora apanhado tenho um caso com a mãe de Holmes. O problema culminou no brutal assassinato da mulher pelo marido traído, na frente dos filhos. A partir de então, psicologicamente perturbado, o jovem Sherlock cresceu alimentando a descrença nas mulheres e o ódio mortal a seu tutor, ao qual atribuiu a figura imaginária de um perigoso criminoso como pretexto para persegui-lo até sua destruição.


O Grande Hiato

     No caso "O Problema Final", ocorre o inevitável confronto entre Sherlock Holmes e seu maior antagonista, o Professor Moriarty, resultando numa trágica queda de ambos das Cataratas Reichenbach, na Suíça. Durante três anos, Holmes e Moriarty são dados como mortos; até que, em 1894, Sherlock Holmes reaparece para o mundo, esclarecendo que a queda fora fatal apenas para Moriarty.

     O período em que Holmes ficara ausente (1891-1894) é conhecido como O Grande Hiato, e é objeto de muita especulação entre sherlockianos estudiosos de todo o mundo, espaço para um grande número de teorias e conjeturas. Segundo o próprio Holmes, durante esse período ele esteve no Tibet, Meca, Khartoum e Montpellier, onde passou alguns meses estudando derivados de coltar.

     Os motivos de tanta dúvida e especulação a respeito do que Holmes realmente estaria fazendo durante sua ausência, no período do Grande Hiato, deve-se em boa parte às inconsistências encontradas no caso "A Casa Vazia", onde Holmes reaparece para Watson - na primeira, Watson escreve "Llama" ao invés de "Lama", transformando o líder espiritual do Tibet num animal de montaria dos Andes; na segunda, ele escreve "Montpelier" ao invés de "Montpellier", pondo Holmes para estudar derivados de coltar numa cidade americana e não no sul da França. William S. Baring-Gold, em seu artigo "Você deve ter lido a respeito das notáveis explorações de um norueguês chamado Sigerson", analisa as visões de três grupos distintos de estudiosos da sherlockiana:

     Os Fundamentalistas, que acreditam que Holmes realmente fez tudo o que disse no "A Casa Vazia", culpando Watson pelas falhas no texto;

     Em oposição aos Fundamentalistas, há o grupo dos chamados Interpretativos - acreditam que, por alguma razão, Holmes não estava sendo inteiramente franco com Watson na descrição de sua expedição (ou, alternativamente, que Watson, por alguma razão, não estava sendo totalmente sincero com seus leitores).

     Várias teorias explicam esse pensamento, incluindo a de Walter Armstrong, que conclui: "Holmes estava na verdade em Londres, esperando o Coronel Moran fazer um movimento em falso; e Watson sabia disso. Depois da apreensão do Coronel, [Holmes] assumiu sua identidade, e Watson, assim, (...) inventou uma narrativa fictícia de sua escapatória e de seu retorno. (...) Mas não podemos culpá-lo, já que a decepção era necessária a fim de capturar os membros remanescentes da gangue de Moriarty."

     Há, ainda, a teoria de Edgar W. Smith, que afirma que Holmes estaria, na verdade, nos Estados Unidos da América, visto as afirmações feitas por ele, no caso "Os Dançarinos", sobre o Departamento de Polícia de Nova Iorque e seus conhecimentos de Chicago (veja também Montpelier, acima).

     O terceiro grupo, dos Sensacionalistas, consiste numa facção mais radical de estudiosos, cujas teorias são ramificadas em três conclusões distintas:

1. Tanto Holmes quanto Moriarty de alguma forma sobreviveram às Cataratas Reichenbach
2. Nem Holmes nem Moriarty sobreviveram, sendo todas as histórias posteriores meras fraudes (ou inventadas por Watson, ou protagonizadas por um falso Holmes) ou, na melhor das hipóteses, relatos de casos antigos em que Holmes participou.
3. Apenas Moriarty sobreviveu

     De qualquer forma, nenhuma dessas hipóteses podem ser consideradas verdadeiras. Não há nenhum episódio em todo o Cânone que prove que Holmes não esteve em todos aqueles lugares, depois de ter presumivelmente escapado da morte nas cataratas Reichenbach. Fica aí a dúvida que nunca será elucidada, mas sim objeto de mais e mais especulações, das mais radicais às mais conservadoras.


O "H" de John H. Watson

     Igualmente a muitos aspectos da vida de Watson, o nome do meio do doutor permanece um mistério envolto na espessa neblina de Londres. Ao leitor nunca é revelado o que seria o "H" de John H. Watson.

     No entanto, é amplamente aceita a teoria apresentada por Dorothy L. Sayers, que conclui que o "H" representa Hamish, dada a origem escocesa de Watson. Como Hamish é o equivalente escocês de James, a teoria de Sayers soluciona o problema que surgiu quando, no caso "O Homem do Lábio Torcido", Mrs. Watson chama seu marido pelo nome de James. Assim, resolvendo dois problemas relacionados, Sayers teve sua idéia aceita pela grande maioria dos sherlockianos do mundo todo. O nome completo de Watson é, num consenso, John Hamish Watson.


Os Casamentos de Watson

     O número de vezes em que Watson foi casado é um dos objetos de maior especulação sobre sua vida. Enquanto alguns afirmam ter ele se casado quatro ou mais vezes, o Cânone nos mostra que o doutor casou-se pelo menos três vezes.

     Conforme vemos em "As Cinco Sementes de Laranja", Watson estava casado em Setembro de 1887. A identidade da esposa permanece um incógnito.

     Em 1888, Watson pede Mary Morstan em casamento, o que sugere que sua primeira esposa tenha provavelmente falecido há pouco tempo, já que divórcios não eram comuns naquela época.

     Em vários casos seguintes, Watson faz alusão a seu casamento, à sua esposa, ou ao fato de não estar morando com Holmes por estar casado. Porém, nunca afirma que é realmente com Mary que está casado. Seu nome não é mencionado em nenhum lugar fora em "O Signo dos Quatro".

     Mary Morstan aparentemente faleceu entre 1891 e 1894, durante o período do Grande Hiato ("Ele [Holmes] soubera de meu desgosto, e demonstrou sua solidariedade mais por suas maneiras que por suas palavras"), conforme vemos em "A Casa Vazia".

     E, ainda, um outro casamento é mencionado em 1903, no caso "O Rosto Lívido"; mais uma vez, com uma noiva desconhecida.


O Cânone Secreto

      "Em algum canto da caixa-forte do banco Cox & Company, em Charing Cross, existe uma mala de metal muito viajada e gasta com o meu nome, John H. Watson, M.D., impresso na tampa. Está repleta de papéis, que são em sua maioria registros de casos que ilustram os curiosos problemas que em várias ocasiões o Sr. Sherlock Holmes precisou resolver."

    Em 1891, no caso "O Problema Final", Holmes diz a Watson que já investigou mais de mil casos. Assim, até o final de sua carreira, ele provavelmente se viu envolvido em mais de dois mil casos. Ora, se apenas sessenta deles nos são narrados no Cânone, há uma infinidade de outros mais que permanecem desconhecidos do público. São os casos que constituem o chamado Cânone Secreto.

     Alguns desses casos desconhecidos foram brevemente mencionados no Cânone. Eis alguns deles:

O Mistério de Alicia
("A Ponte Thor")

Dr. Moore Agar, um encontro dramático
("O Pé-do-diabo")

A Tragédia de Addleton
("O Pincenê de Ouro")

Os Assassinatos de Abergavenny
("A Escola do Priorado")

A Pérola Negra do Borgias
("Os Seis Napoleões")

John Clay
("A Liga dos Cabeças Vermelhas")

Crosby, o banqueiro
("O Pincenê de Ouro")

O Escândalo da Substituição de Darlington
("Um Escândalo na Boêmia")

O Barão Dowson
("A Pedra Mazarino")

Um Caso de Falsificação
("Um Estudo em Vermelho")

Mrs. Cecil Forrester
("O Signo dos Quatro")

O Inspetor Stanley Hopkins
("A Granja da Abadia")

Victor Lynch
("O Vampiro de Sussex")

A Casa Arrendada
("O Intérprete Grego")

Matilda Briggs
("O Vampiro de Sussex")

A Companhia Sumatra dos Países Baixos
("Os Fidalgos de Reigate")

A Velha Russa
("O Ritual Musgrave")

Mr. James Phillimore
("A Ponte Thor")

A Família Real Escandinava
("O Problema Final", "O Solteirão Nobre")

Archie Stamford, o forjador
("O Ciclista Solitário")

O Sultão da Turquia
("O Rosto Lívido")

O Rato Gigante de Sumatra, uma história para a qual o mundo ainda não está preparado
("O Vampiro de Sussex")

Conde Sylvius
("A Pedra Mazarino")

Os Assassinatos de Tarleton
("O Ritual Musgrave")

O Capitão Cansado
("O Tratado Naval")

A Súbita Morte do Cardeal Tosca
("Pedro Negro")

O Lagarto Venenoso
("O Vampiro de Sussex")

François Le Villard
("O Signo dos Quatro")

Wilson, o Treinador de Canários
("Pedro Negro") 
 

Bibliografia geral:
The Annotated Sherlock Holmes, William S. Baring-Gould, Clarkson N. Potter;
The Ultimate Sherlock Holmes Encyclopedia, Jack Tracy, Gramercy Books;
Encyclopedia Sherlockiana, Mathew E. Bunson Macmillan;
The Original Illustrated "Strand" Sherlock Holmes, Sir Arthur Conan Doyle, Wordsworth Editions.


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Os títulos dos contos variam de acordo com o tradutor.


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