É óbvio que Sherlock Holmes, na qualidade de
personagem fictício de maior renome mundial, exigiu muito suor e
sangue de seu célebre criador, o escocês Sir Arthur Conan
Doyle. Talvez por isso Doyle pretendesse extingui-lo de vez. O tempo
que Holmes e Watson lhe roubavam poderia ser aproveitado de uma forma
mais erudita, como forma de transparecer seu espírito culto.
Quando Doyle, por fim, decidiu assassinar Holmes, recebeu uma enxurrada
de cartas malcriadas e rudemente decepcionadas. Isso fez com que ele,
sob pressão, ressuscitasse o mais famoso detetive consultor de
que se tem nota. Claro que, com o tempo, as histórias de Holmes
sofreram notáveis mudanças, o que foi motivado pela falta
de disposição por parte do autor. Doyle certamente
não se sentia à vontade escrevendo sobre Holmes. Mas por
quê? Suposições e hipóteses são
bem-vindas.
A primeira é a de que, escrevendo
histórias sherlockianas, seus leitores não o
considerariam como um autor versátil, mas sim apenas como o
escritor das aventuras de Sherlock Holmes. Toda sua veia
literária que pretendia criar romances
histórico-fictícios foi barrada, impondo-lhe a
árdua tarefa de continuar com a saga de brilhantes
deduções de Holmes. E isso o aborrecia. Façamos
justiça: se, em 1.893, Doyle acabasse definitivamente com a
carreira de Holmes, ele, logicamente, predisporia seu tempo à
outro tipo de literatura, o que revelaria tesouros até mesmo
tão valiosos quanto às cinqüenta e seis aventuras de
seu detetive consultor da 221B Baker Street.
A segunda é a de que começassem a
confundir criador e criatura. Onde começava Doyle e acabava
Holmes? Prova disso são as inúmeras cartas recebidas
até hoje em dia endereçadas a 221B Baker Street,
endereço onde supostamente residiu o fabuloso Sherlock. Sherlock
não era entendido como um personagem fictício, mas como
um ser real, descoberto por Doyle. Toda quimera tem uma
extensão, mas esta passava a se tornar ridícula a Doyle.
Cremos que na sua opinião, tudo isso já era o suficiente
para se irritar com Holmes.
A terceira é a de que Holmes talvez seria
superior a Doyle, o que visivelmente o incomodava. Holmes tinha um
porte atlético, um cérebro incomum e uma capacidade de
dedução fora do contexto. É certo que tudo isso
foi bolado por Doyle, mas todos esses lances dedutivos de Holmes foram
apenas fruto de uma situação aparentemente trivial
esquematizada por Doyle. O plano era simples: ele criava uma
situação comum ou inocente e tecia
situações em volta dela que viriam a complicá-la,
envolvendo personagens e fatos que faziam um desafio ao cérebro
de Holmes. Mas tudo planejado. Nesse quesito, a ficção
vencia a realidade, supostamente, pois Doyle, por mais que se
esforçasse chegaria apenas a ser tão bom quanto Holmes.
Mas nunca melhor. Isso era insuportável e alimentava seu desejo
de livrar-se dele.
Por fim, resta falar do respeito dos leitores
às obras de Doyle. Holmes era entendido apenas como literatura
de entretenimento, ninguém se aprofundava em suas complexas
ramificações. Para comprovar tal teoria, todos que o liam
não sabiam como aplicar seus métodos na vida real. Os que
o sabiam, caminhavam errônea e tropegamente. É quase certo
que, talvez fosse por isso que Doyle procurava esquivar-se de Holmes
para dedicar-se à sua nova literatura. O estilo de tais obras
permitiriam um maior envolvimento com seus livros, o que indicaria um
maior respeito às suas narrativas. Esse era o seu grande
projeto. Se desse certo, talvez Holmes não fosse nem sombra do
que hoje é. Sorte nossa.
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