Para os primeiros leitores do detetive, na época em que
suas histórias estavam surgindo em periódicos, a imagem
do detetive era definida conforme descrito por Watson em "Um Estudo em
Vermelho":
"Tinha muito mais de um metro e oitenta de altura,
e era tão excessivamente magro que parecia muito mais alto. Seus
olhos eram agudos e penetrantes (...), e o nariz fino de águia
dava a todo seu semblante um ar de vivacidade e decisão. O
queixo tinha o formato proeminente e quadrado, que marca o homem de
determinação".
Mais tarde, no entanto, a aparência do
detetive foi se moldando com os desenhos de Sidney Paget e outros
ilustradores do Cânone. A figura de Sherlock Holmes
começava a tomar uma forma um pouco mais definida.
Mas é no final do século XIX que a
imagem do detetive foi finalmente consolidada. Com a estréia da
peça Sherlock Holmes, William Gillette (1853-1937) personifica
Holmes com uma verossimilhança como nunca antes fora vista. O
ator e diretor americano, trabalhando em cima de uma peça
previamente escrita por Conan Doyle, reuniu elementos de várias
aventuras de Holmes em uma única história, trazendo para
os palcos características e peculiaridades extremamente
fiéis às do detetive e familiares ao público.
O sucesso foi estrondoso, obrigando Gillette a
personificar Holmes mais de 1.300 vezes em teatros da Inglaterra e
Estados Unidos. Para a maioria do público, ele era o
próprio Sherlock Holmes, e não simplesmente um ator que o
interpretava. Sua imagem fundiu-se mais ainda com a do detetive quando
o artista Frederic Dorr Steele passou a usa-lo como modelo para suas
ilustrações de Holmes. Gillette fez muito mais do que
simplesmente trazer o detetive à vida - ele se transformou no
próprio.
Além disso, foi William Gillette quem
difundiu a imagem de Sherlock Holmes usando um cachimbo curvo: o ator
achou que o cachimbo original das histórias de Doyle, o cachimbo
de cano reto, atrapalhava na pronúncia das palavras, e optou
assim pelo uso do curvado. Essa imagem acompanha o detetive até
os dias de hoje, na grande maioria de suas
representações. Foi Gillette, também, quem
difundiu a frase "Elementar, meu caro Watson". A frase na verdade nunca
fora dita por Holmes em nenhuma de suas sessenta aventuras, mas acabou
enraizando-se forte e inseparavelmente no imaginário do
personagem.
William Gillette influenciou em muito o detetive
consultor, sem dúvida. Mas o contrário também
aconteceu - o público não conseguia desassociar o ator a
Sherlock Holmes, tanto que suas tentativas de representar outros
personagens eram sempre frustradas. A população queria
Gillette como Holmes e somente como Holmes. Imagine quão
desesperador isso era para um ator Shakespeariano!
No entanto, mesmo cansado de representar sempre o
mesmo personagem, o ator soube lidar com isso e criou até mesmo
uma segunda peça para Sherlock Holmes: dessa vez uma
sátira denominada The Painful Predicament of Sherlock Holmes,
encenada por Gillette em 1905.
Depois de aposentado, em 1910, fez mais algumas
aparições como Holmes - participou da versão
cinematográfica de sua peça Sherlock Holmes e narrou uma
história do detetive no rádio. Pouco depois, foi nomeado
convidado de honra no encontro anual da então
recém-formada The Baker Street Irregulars.
Vinte e nove anos mais tarde, foi a vez de Basil
Rathbone (1892-1967). Agora, Sherlock Holmes tomava forma no cinema.
Não se sabe ao certo como Basil Rathbone descobriu Sherlock
Holmes (ou será que foi Sherlock Holmes quem descobriu
Rathbone?), mas o fato é que desde o primeiro momento em que
atuou como o detetive, o ator de origem sul-africana impressionou a
todos com seu jeito e aparência idêntica ao detetive.
O sucesso veio com sua estréia na
adaptação cinematográfica da novela O Cão
dos Baskervilles, onde atuou em conjunto com o cômico Dr. Watson
de Nigel Bruce. Logo depois, a boa aceitação de As
Aventuras de Sherlock Holmes firmou a dupla Rathbone-Bruce como
memoráveis Holmes-Watson.
Em outubro daquele mesmo ano, os dois iniciaram um
programa no rádio de adaptações das
histórias do Detetive Mestre. Programa esse que continuariam a
apresentar até 1946.
A partir de 1942, tendo firmado contrato com a
Universal Pictures, Rathbone e Nigel Bruce brilharam em mais uma
série de filmes de Sherlock Holmes: Sherlock Holmes and the
Voice of Terror, Sherlock Holmes and the Secret Weapon (1942), Sherlock
Holmes in Washington (1943), Sherlock Holmes Faces Death (1943), The
Scarlet Claw (1944), Sherlock Holmes and the Spider Woman (1944), The
Pearl of Death (1944), The House of Fear (1945), The Woman in Green
(1945), Pursuit to Algiers (1945), Terror By Night (1946) e Dressed to
Kill (1946).
As pessoas adoravam Basil Rathbone como Holmes. E
cada novo filme da dupla servia para firmar ainda mais a
associação entre a figura do ator e o herói da
Baker Street. Assim como aconteceu com William Gillette, Sherlock
Holmes tomou conta de Rathbone. Algumas pessoas, ao abordar o ator,
não lhe pediam seu autógrafo, mas sim o de Holmes.
Cansado de seu vínculo com o detetive, o
ator decidiu desligar-se dele assim que seu contrato expirou, optando
por não renova-lo; para espanto e tristeza de fãs,
produtores e até do próprio Nigel Bruce.
Mas a associação continuaria com
Rathbone até seus últimos dias. Incapaz de livrar-se do
detetive, Rathbone acabou fazendo algumas participações
esporádicas como Holmes em programas de televisão e no
teatro, onde atuou na peça Sherlock Holmes, escrita por sua
esposa.
Depois de William Gillette, Basil Rathbone é
considerado o melhor ator a ter assumido o papel de Sherlock Holmes.
Outro ator que se destacou ao encarnar o personagem
de Doyle, e não deve ficar de fora desta lista, foi o
inglês Peter Cushing (1913-1994).
Famoso por estrelar filmes de horror
notáveis da época, como Curse of Frankenstein (1957) e
Horror of Dracula (1958), Cushing mostrou-se igualmente capaz
interpretando Sherlock Holmes. Baseando-se nos desenhos de Sidney Paget
retratando Holmes, o ator londrino criou um Sherlock Holmes
energético e vivaz, que alcançou fama na versão de
1959 de O Cão dos Baskervilles e em seriados de TV.
Mais recentemente, Jeremy Brett (1933-1995) obteve
grande notoriedade ao personificar o herói, sendo equiparado por
muitos ao próprio Basil Rathbone.
Brett atuou como Sherlock Holmes nos filmes The
Adventures of Sherlock Holmes (1984), The Return of Sherlock Holmes
(1986) , The Casebook of Sherlock Holmes (1990), The Sign of Four
(1987), The Hound of the Baskervilles (1988), The Memoirs of Sherlock
Holmes (1994), The Eligible Bachelor (1992), The Last Vampyre (1992),
The Master Blackmailer (1991), The Return of Sherlock Holmes II (1988)
e The Adventures of Sherlock Holmes II (1985). Todos para as
séries de TV da Granada Television.
Esses grandes atores aqui mencionados colaboraram
para consolidar o imaginário coletivo de Sherlock Holmes,
moldando-o à forma que conhecemos até hoje — com
seu cachimbo curvo, seu boné xadrez, o capote bege, e esbanjando
a célebre frase "Elementar, meu caro Watson". Esta
seção é dedicada à memória desses
homens.
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