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Por que as estórias de Sherlock Holmes eram tão populares
Quais são as qualidades existentes nas estórias de Conan Doyle sobre Sherlock Holmes que têm sustentado sua popularidade por tantos anos? Sir Arthur Conan Doyle estava entre os primeiros escritores de estórias e romances de detetive da Inglaterra. O primeiro romance reconhecido como uma estória de detetive foi escrito em 1868, por Wilkie Collins, intitulado "A Pedra-da-lua". Mais tarde, em 1870, o popular romancista Charles Dickens também arriscou-se a escrever uma novela de detetive chamada "O Mistério de Edwin Drood". Essas primeiras estórias de detetive não se tornaram tão famosas quanto a criação de Doyle por inúmeras razões, uma das quais foi o fato de que, quando Doyle começou a escrever suas novelas, havia uma grande demanda por estórias, já que mais pessoas estavam sendo educadas e alfabetizadas. Consequentemente, quando as estórias de Holmes foram publicadas, estava havendo um grande aumento da literatura na Inglaterra, maior do que havia no tempo de Dickens e Collins. Além disso, o fato de que dialetos eram raramente usados em quaisquer das estórias de Sherlock Holmes, diferente de outros trabalhos da época, tornava fácil para as pessoas lerem e entenderem o conteúdo, particularmente para aqueles que haviam recentemente adquirido a capacidade de leitura. Além do mais, como as estórias foram originalmente publicadas na revista "Strand", elas tornavam-se razoavelmente acessíveis. As estórias eram, na maioria das vezes, mais curtas que aquelas de outros escritores, e evitavam, assim, detalhes desnecessários. Em sua maioria, as estórias têm uma distinta e sucinta estrutura no enredo e eram auxiliadas por ilustrações, que, sugiro eu, tiveram uma importante participação no sucesso geral. Embora a popularidade de suas estórias de detetive aumentaram rapidamente, Doyle tornava-se cada vez mais incomodado com seu personagem. Ele queria, por preferência pessoal, devotar um maior tempo a outras formas de literatura. Decidiu, então, que a melhor forma de fazê-lo seria acabar com a vida de Sherlock Holmes, com uma dramática estória envolvendo o pior inimigo do detetive, Professor Moriarty. Doyle colocou seu famoso detetive e seu inimigo caindo para a morte nas cataratas de Reichenbach, na Suíça. Doyle, entretanto, tinha subestimado a popularidade de seu personagem, pois, quando seus leitores leram "O Problema Final", ouve um clamor geral reclamando sua ação. Ele recebeu muitas cartas de leitores enfurecidos, e alguns homens chegaram a marchar por Londres, vestindo faixas negras em volta do chapéu, indicando o remorso que sentiam pela morte de seu detetive favorito. Foi sugerido que era a popularidade de Sherlock Holmes que mantinha a revista "Strand" nos negócios, e quando as estórias de Doyle não apareceram nela, poucas cópias foram vendidas. O editor da revista comentou a morte de Holmes como "um acontecimento terrível" para seus acionistas, mostrando o quão grande era a perda para a companhia. Sete anos após a suposta morte do detetive, e depois de ter recebido a oferta de uma substancial remuneração do editor, Doyle rendeu-se à pressão do público e escreveu um romance intitulado "O Cão dos Baskervilles", estrelando Sherlock Holmes e o Dr. Watson. Como a popularidade de Holmes continuou a crescer, ele revelou, nas séries seguintes, que a queda nas cataratas Reichenbach fora fatal somente para Moriarty e que Holmes conseguira escapar no último instante. Doyle faleceu em 1930, mas não sem antes ter escrito mais trinta e duas pequenas estórias e um quarto romance, "O Vale do Terror", com Holmes e Watson. Uma razão para o fascínio das estórias pode ser a originalidade do modo no qual os crimes eram resolvidos. Como a força policial fora estabelecida apenas em 1814, e a divisão de detetives em 1842, os métodos usados na resolução de casos reais ainda eram muito básicos. Consequentemente, os leitores não tinham muito conhecimento das maneiras de dedução e, desse modo, as tramas das estórias pareciam bastante técnicas, mais ainda o modo como os casos eram resolvidos. Esse é um gênero que permite ao leitor sentir que está participando indiretamente do processo de dedução e possível elucidação de um mistério. Os métodos que Holmes usa para solucionar os problemas são bastante extraordinários. Por exemplo, na aventura "O Carbúnculo Azul", Holmes estuda o chapéu de um estranho: "'Ele é um homem que leva uma vida sedentária, sai muito pouco, está totalmente fora de forma, tem meia-idade, cabelos grisalhos, que cortou há poucos dias e que unta com creme-lima.'" Muitos leitores acham essa habilidade fascinante, o que, por sua vez, encoraja-os a lerem outras estórias do detetive. No final do século dezenove, os policiais não eram queridos e geralmente eram tratados com pouco respeito. Doyle usou esse conhecimento em muitos dos casos em que Holmes é chamado para investigar, depois de a polícia ter tentado e desistido de achar uma solução. Por exemplo, na aventura "O Construtor de Norwood", a polícia prende John Hector McFarlane como suspeito do assassinato da Jonas Oldacre. Holmes deduz que Oldacre ainda está vivo e bem, e usa suas perícias para fazer o homem revelar-se à polícia. Desse modo, como Sherlock Holmes podia usar seus poderes de dedução para resolver casos que a polícia achava difícil, ele ocasionalmente fazia pouco dos policiais, o que possivelmente é um aspecto que os leitores originais apreciavam. Durante a inicial fama de Sherlock Holmes, Doyle foi convidado a auxiliar a Scotland Yard na investigação dos assassinatos de Jack, o Estripador. O convite a Doyle foi usado para desviar as críticas do público para com a força policial em sua incapacidade de solucionar crimes. Além disso, os assassinatos do Estripador podem ter sido eficazes em aumentar o interesse do público no gênero da detecção e na mórbida fascinação em assassinatos e outros eventos horripilantes, aumentando, assim, a popularidade dos mistérios de Holmes. A personalidade de Holmes é também bastante intrigante. Doyle criou um personagem que parece ser sempre frio e distante diante das pessoas que vão pedir-lhe auxílio. Entretanto, ocasionalmente, por um breve período de tempo, ele mostra ao leitor um diferente aspecto de sua personalidade. Um exemplo disso está na aventura "O Pé do Diabo", onde Holmes, com a assistência de Watson, realiza um experimento com um desconhecido pó encontrado na cena do crime. O experimento mostra-se bastante nocivo e os dois personagens arrastam-se para a segurança. É nesse ponto que Holmes declara: "'Palavra de honra, Watson! Devo a você meus agradecimentos e minhas desculpas. Foi um experimento injustificável para alguém, ainda mais para um amigo. Eu realmente sinto muito.'" Doyle cria em seu personagem central uma genuína preocupação por seu companheiro e Watson indica ao leitor, no texto a seguir, que esse é um raro momento: "'Você sabe,' respondi com alguma emoção, por nunca ter visto tanto do coração de Holmes antes, 'que é o maior prazer e privilégio ajudá-lo.'" Doyle produz uma parceria que explora o fato de Holmes e Watson terem uma forte amizade, apesar de suas diferenças óbvias de personalidade. É provável que os primeiros leitores gostavam de ler sobre os vários interesses de Holmes e talvez se identificassem com alguns deles. A paixão por tocar violino e ouvir música orquestral são exemplos de passatempos com os quais os leitores originais poderiam se identificar. Além disso, o modo como Doyle descreve as maneiras e as falas de Holmes, tornam a leitura interessante, indicando que ele está no controle da situação. Doyle criou algumas características em seu personagem, que tornaram-se marcas registradas de Holmes. Um exemplo diz respeito a um distinto gesto, no qual ele une seus dedos da mão, como mostrado no primeiro capítulo de "O Signo dos Quatro": "Ao contrário, ele uniu as pontas dos dedos e apoiou os cotovelos nos braços da poltrona, como quem se dispõe a palestrar agradavelmente." Esse foco no movimento da mão, que parece centralizar o poder de concentração do personagem, dá ao leitor uma imagem mais clara de Sherlock Holmes. Outra característica é seu estilo de sentar na poltrona com seus braços e pernas dobrados, indicando um intenso grau de meditação. Doyle usa descrições suficientes em suas estórias para que o leitor veja Holmes como um sujeito sombrio, misterioso e solitário. Doyle cria uma noção de urgência e suspense em muitas das falas de Holmes, e ele freqüentemente grita com sua governanta, Mrs. Hudson, e com seu amigo, Watson, quando tem uma idéia de como solucionar um novo crime que fora cometido: "'Pelos céus, Watson! O que houve com o cérebro que Deus me deu? Rápido, homem, rápido! É vida ou morte -- uma centena de chances na morte para uma na vida. Nunca me perdoarei, nunca, se for tarde demais!'" O exemplo é indicativo da alta energia que é comum na maioria das estórias. Doyle ligou essa energia de Holmes ao uso da cocaína e morfina. Em algumas das estórias, Watson conta ao leitor que tem tentado ajudar Holmes a dispensar o uso das drogas, como em "O Atleta Desaparecido". Esse uso de drogas pode ter dado ao leitor uma certa afeição por Holmes, pois mostra que um educado homem britânico conhecia (e freqüentava) tocas de ópio, onde ele entrava em contato com aspectos da existência humana sobre o qual o leitor em geral provavelmente tinha pouco conhecimento. Doyle fez Holmes voltar-se para as drogas a fim de combater a depressão e chateação que toma conta dele quando na falta de ocupação satisfatória. A razão para isso é que Holmes vive em seu trabalho, e Doyle criou um senso de obsessão, em seu personagem, de encontrar a solução para problemas que lhe são apresentados. Uma outra razão para o estado de melancolia para o qual Holmes tendia quando não tinha o excitamento de casos novos, é o efeito circular de tomar narcóticos numa base irregular; períodos de intensa energia dispensa seu uso, mas depois de uma breve pausa deles, a queda ao estado de abatimento e o notável recolhimento. A alternância do alto para o baixo, sugiro eu, gera uma certa emoção e interesse. Uma outra característica desenvolvida em Holmes é que ele é unicamente interessado nos pormenores, e encoraja seus clientes a serem os mais concisos possíveis. Uma ilustração para esse ponto está na aventura "A Face Amarela": "'Peço-lhe, como o tempo é de suma importância, poderia fornecer-me os fatos de seu caso sem mais tardar?'" Isso indica sua impaciência para começar a desvendar o mistério em mãos, o que pode ser outra característica que as pessoas admiram e sobre a qual gostam de ler. Um senso de domínio e precisão é criado na personagem central, dando a Holmes qualidades quase sobre-humanas e heróicas. Em "O Signo dos Quatro", ao leitor é mostrado que Watson não gostava de chatear ou discordar do grande detetive: "Seus grandes poderes, sua maneira magistral e a experiência que tive de suas muitas qualidades extraordinárias, deixavam-me acanhado e hesitante em divergir dele." Isso sugere que Doyle criou um sentido de superioridade no personagem de Holmes. Ele raramente leva o crédito por seus trabalhos e freqüentemente permite que a polícia fique com todo o reconhecimento. Essa humildade é um aspecto positivo de sua personalidade, um recurso usado por Doyle para aumentar o atrativo e o senso de razoabilidade a ser encontrado na caracterização do detetive inglês, e estabelece-se como um motivo adicional pelo qual as pessoas acham Holmes tão interessante e querido. Holmes nem sempre obtém sucesso em seus casos, um exemplo é o caso "A Face Amarela", onde ele diz a Watson no final da história: "'Watson', disse ele, 'se alguma vez notar que estou ficando excessivamente confiante em meus poderes, ou estiver dando menos atenção a um caso do que ele realmente merece, gentilmente sussurre "Norbury" em meu ouvido e eu lhe serei infinitamente grato.' " Esse trecho mostra que ele não é infalível, e o torna mais humano e verossímil do que se ele tivesse sucesso em todos os casos. O personagem de Watson pode ser outro motivo pelo qual as pessoas gostam de ler as estórias. Doyle produziu uma personalidade amigável e gentil no companheiro de Holmes, um personagem do qual muitos leitores podem sentir-se perto e simpaticamente atraídos. A maneira que Doyle escreveu as estórias, faz com que os leitores sintam-se amigos de Watson, e que estão participando de sua narrativa, as façanhas que ele teve com seu grande detetive sócio. É mostrado, em muitos dos casos, que Watson é uma pessoa carinhosa com os outros ao seu redor. Estruturalmente, há um senso de dramática tensão na conclusão de cada capítulo dos romances. Por causa da natureza da publicação mensal para a qual eles eram escritos, isso é importante. A conclusão do capítulo seis de "O Cão dos Baskervilles": "De repente, no meio da noite, chegou aos meus ouvidos um som claro, ressoante e inconfundível. Era um soluço de mulher; som abafado, engasgado, de quem está presa de invencível emoção. Sentei-me na cama e fiquei atentamente à escuta. O barulho não podia vir de muito longe, não havia dúvida de que era ali na casa. Esperei durante meia hora, com todos os nervos alerta, mas não ouvi mais nada, a não ser o ruído do relógio e o raspar da hera na parede.", cria uma noção de suspense e incentiva o leitor a continuar lendo. Finalmente, sugiro que o encanto nostálgico de Sherlock Holmes atrai as pessoas aos livros, particularmente os leitores mais velhos, que acham prazerosa a leitura sobre tempos passados. Nos últimos anos, peças teatrais, filmes e adaptações para a televisão reafirmaram a apreciação das pessoas para com o grande detetive e seu mundo de mistério e crime. Uma outra razão para o sucesso das estórias é que as pessoas adoram relaxar e apreciar um bom livro, mergulhando num mundo fictício onde o estresse da vida moderna não está presente. Um poema intitulado "O que é que adoramos em Sherlock Holmes?", de Edgar Wadswoth Smith, sugere isso na primeira estrofe: "Adoramos o tempo em que ele viveu. Os meio lembrados, meio esquecidos tempos da confortável ilusão Vitoriana, De conforto e satisfação à luz de gás, de perfeita dignidade e graça." MuNdO eLeMeNtAr - Todos os direitos reservados |